Ser Aluna do Juris Doctor, Grávida e na Pandemia

 Esse post poderia ser um desabafo, ou poderia ser uma receita sobre resiliência. Estou exatamente com 9 meses de gravidez e meu filho nasce em três semanas. Estou escrevendo esse post para que no futuro tenhamos orgulho de nós mesmos. 

O ano de 2020 não foi fácil para ninguém. A começar pelas pessoas que perderam a vida ou perderam pessoas que amavam devido ao coronavírus. A eles, toda a minha empatia. Graças a Deus os meus familiares estão bem e saudáveis, e rezo todos os dias para que continuemos assim. 

Mas, neste post eu gostaria de relatar o que foi 2020 para mim. A minha vida profissional nos EUA, foi desenhada juntamente com a minha vida pessoal. Em 2016, eu casei. E em 2016, eu fui aceita no LL.M. O meu maior sonho como mulher e profissional sempre foi conciliar a família e trabalho. E, no meu ritmo, consegui fazer os dois. 

Aos quatro anos de casada e aos 30 anos de idade, eu queria ser mãe. Mas, ser mãe não se encaixava na minha agenda ocupada, nas minhas rotinas loucas, nos meus estudos de madrugada, e em um dos cursos mais difíceis dos EUA, o Juris Doctor. Ser mãe também não se encaixaria na prova do BAR, no cursinho, nas revisões e nos dois dias de prova. Ser mãe, racionalmente, não se encaixava no mercado de trabalho de uma recém formada em um país no qual não existe lei que garanta a licença maternidade remunerada. Como ser mãe neste cenário, se eu ainda tinha uma casa e um marido para dar assistência? E Como todo ser humano, eu também tinha problemas. E meus problemas são divididos em dois países: EUA e Brasil. Pela primeira vez na vida, as minhas indagações da vida pessoal estavam tirando o brilho da minha vida profissional. 

Eu queria ser mãe. E percebi que nunca haveria o momento correto, que o universo não iria preparar o momento certo. Que depois do JD, do BAR, e do emprego, eu ainda estaria nova, fértil, e disposta a correr atrás de uma criança. Então, antes de engravidar eu precisei aceitar me deixar engravidar. Eu comecei a olhar para o lado e perceber que todos os meus familiares estavam vivos, que eu tinha uma casa, estabilidade financeira e um casamento feliz. E mesmo assim, eu achava que não estava pronta. Pronta para quê? Uma criança não nasce sabendo o que é diploma, ou dinheiro, ou uma vida confortável. Ela te ama porque reconhece na mãe um porto seguro. Ser mãe é simples, a gente é que complica. E foi assim que começou meu 2020. Antes de 2020. Sem essa autoafirmação, sem essa descoberta interna, sem ter aprendido o que eu realmente queria para a minha vida, eu não teria conseguido enfrentar 2020 sem desistir de ser aluna do Juris Doctor, Grávida e na Pandemia. 

Decidimos que diante da realidade e dos meus planos, eu poderia estar grávida durante a JD. Talvez, fosse até mais "fácil", pois dentro da faculdade eu poderia trancar o curso por seis meses, enquanto no mercado de trabalho eu teria que lidar com as licenças maternidades horrorosas que são comuns nos EUA: 3 meses. Eu também já tinha passado as fases mais difíceis do curso que eram as matérias obrigatórias. E eu tinha apenas 20 créditos para a terminar. Ser mãe nesta fase parecia até uma vantagem. 

Eu descobri que estava grávida em 25 de Janeiro de 2020. Foi uma surpresa, pois apesar de termos decidido começar a tentar, nós não imaginávamos que eu engravidaria tão rapidamente. Por isso, quando o teste deu positivo foi a maior surpresa da minha vida. Estávamos no inverno de Indiana: frio, neve, chuva, dias cinza, época de gripe, e o caos da COVID-19 já se desenhava na China. Mas, ninguém tinha ideia do que estaria por vir. 

Nesta época as aulas já tinham começado, e a minha agenda estava lotada de matérias, aulas e externship. Como eu não estava grávida na época da matrícula, eu escolhi ter uma agenda cheia como sempre tive. Quando descobri a gravidez, tive que embarcar na aventura.

Os meus dois primeiros meses de gravidez foram bem complicados, pois tive hipotireoidismo gestacional. Com os hormônios desregulados, eu sentia muito sono. Grávidas no primeiro trimestre sentem muito sono. Mas, com hipotireoidismo elas praticamente não tem energia para absolutamente nada. Lembro que precisava dormir 13 horas, para conseguir pelo menos assistir aula, estudar e fazer minha externship. E por mais que eu reclamasse do cansaço, as pessoas diziam que era normal na gravidez. Essa "normalidade" se deu até a minha primeira consulta prenatal. Até o exame de sangue. E até descobrirem que meus hormônios estavam desregulados. Hipotireoidismo pode causar aborto espontâneo ou problemas cognitivos no feto. Então, recebi uma ligação da minha obstetra que me falou o diagnóstico e me disse que não estava preocupada com o risco de aborto, pois a minha diferença hormonal era muito pequena e com o resto que eu tinha eu estava conseguindo nutrir o feto (o que consequentemente estava me deixando exausta, e dormindo o tempo inteiro). Lembro-me que recebi esta ligação enquanto tomava café da manhã e estava de saída para uma reunião/avaliação de externship com uma professora. Lembro-me também que dirigi chorando até a universidade com medo de perder o bebê, e com medo do hipotireoidismo atrapalhar o desenvolvimento do feto. Cheguei, enxuguei as lágrimas e completei a reunião. Assim como, fui para aula todos os dias, fiz todas as leituras, e ainda tinha externship na Procuradoria do Estado alguns dias na semana.

Comecei a tomar remédio para a tireóide todos os dias de manhã. Demorou mais ou menos um mês até que os hormônios começassem a agir, e a minha energia voltasse. Neste momento, foi essencial ter um marido que me apoiasse.Nos seus dias de folga, ele dirigia até a minha universidade para me deixar na aula, ia para academia, comprava meu almoço, voltava para a universidade, e ficava no computador até terminarem as minhas aulas. Então, ele dirigia de volta e eu dormia no meio do caminho. 

                                                  

Em março, estávamos esperando a visita da minha mãe. Ela viria comemorar o meu aniversário, conhecer a nossa casa nova e ir embora. Nosso plano inicial, era que ela voltasse em setembro para acompanhar o parto do meu filho. O meu pai também estava planejando vir. Mas, nós fazemos um plano e Deus faz outro. E os planos de Deus são melhores que os meus.

No final de fevereiro, o vírus do COVID-19 se espalhava pela Europa. A minha mãe queria desistir da viagem para os EUA. Os EUA ainda não tinha declarado lockdown e tudo estava funcionando. Inclusive, eu, grávida, estava indo para as aulas. Praticamente obrigamos a minha mãe a entrar no avião. Orientamos que ela comprasse máscaras e alcool em gel, e que tomasse todas as precauções (mesmo sem imaginarmos o tamanho do que estava por vir). Resultado: ela chegou em uma semana, e na outra semana o lockdown foi declarado. Do primeiro caso descoberto nos EUA, viramos o país com maior número de casos em questão de dias. A universidade fechou, o semestre foi transferido para online, a externship foi transferida para online. Do dia para a noite nossa vida virou de cabeça para baixo. Decidimos pedir extensão de visto para a minha mãe, pois sabíamos que as fronteiras seriam fechadas: caso ela saísse do país, ela perderia o nascimento do neto. Além disso, tivemos que lidar com o receio de ter meu marido, profissional de saúde, trabalhando em meio a um vírus tão desconhecido. 

Tive que conseguir estrutura para estudar online. Comprei uma mesa nova e me adaptei aquela loucura do semestre. Nem professores, nem alunos estavam preparados. Também tive que começar a ir para as consultas do prenatal sozinha. Ser pai era o sonho do meu marido. Ele teve que se acostumar com o estacionamento do hospital, e com os vídeos que eu gravava das ultrassons. Lembro que no dia que vi o meu filho todo formado, eu me emocionei sozinha segurando a câmera do celular. 

A rotina de leitura, estudo, isolamento e gravidez continuavam. O mundo inteiro começava a ter uma crise de saúde mental. E eu não conheci nem o que significava hormônio de grávida, pois em vários momentos eu me senti mais sã que o mundo inteiro. Sabe o que é estar grávida sem poder ser grávida? Foi isso. 

Obviamente, o meu corpo somatizou todos os acontecimentos e do quarto para o quinto mês de gravidez eu desenvolvi um problema de urticária que me acompanhou até os nove meses de gravidez. Fui a cinco médicos diferentes, usei diferente tipos de remédios e todos tratavam apenas os sintomas. A causa era desconhecida, ou melhor, era gravidez. Eu me vi em crise durante várias noites. Eu me coçava da cabeça aos pés. Chorava e dizia ao meu marido que eu não aguentava mais sentir tudo aquilo. Também comecei a me sentir negligenciada pela minha equipe médica, pois quando reportei a urticária começaram a me tratar como uma possível paciente de COVID, já que novos pacientes apresentavam sintomas de urticária. Então, no lugar de me tratarem da urticária, me mandaram testar para COVID. Resultado negativo. Dos males, a urticária.





A coceira me acompanhou durante todas as minhas provas finais da faculdade. Mas, tomava antialérgico, passava pomada e concluía as tarefas. 



Essa situação também não me limitou de fazer aulas de verão. Continuei trabalhando na Procuradoria e fazendo aulas online da faculdade. Troquei de equipe médica e encontrei uma obstetra que me tratasse com o respeito e o cuidado que eu estava procurando, e que começou a tratar da minha urticária com remédios naturais. 

Terminei as aulas de verão e fiz a prova final. Conclui minha jornada como Law Clerk na Procuradoria do Estado. Já o prenatal, continuava com consultas individuais e sem acompanhantes. Logo soube que só seria permitida a entrada de um acompanhante no hospital no dia do parto, que seria realizado de máscara. 

Mesmo com todas as adversidades, fizemos nosso ensaio de gestante aos 7 meses. E nosso chá de bebê virtual aos 8 meses. Nos sentimos muito amados com o carinho de todos os nossos amigos. 


Não tranquei o curso. E optei por fazer pesquisa supervisionada durante o segundo semestre. O resultado da minha pesquisa será o meu TCC. Confesso, que tem sido complicado me concentrar com o peso da barriga, com as noites mal dormidas, com a urticaria, com o refluxo e com a azia. Também tem sido bastante entediante ficar dentro de casa confinada desde março. Alguns dias são melhores que os outros, mas aprendi com 2020 a viver um dia de cada vez, e olhar o lado bom das coisas: estamos todos saudáveis e tive a oportunidade de ter a minha mãe acompanhando toda a minha gestação.

 Esse ano me ensinou muito, me ensinou tanto. Eu me reaproximei do sentido de família, eu vi o que realmente importava na vida, eu aprendi a dar valor a minha saúde, ao meu corpo e eu gerei uma vida que chegará a esse mundo daqui há 3 semanas. Tenho certeza que a experiência do parto será o momento mais inesquecível da minha vida. E estou ansiosa para descobrir a sensação de conhecer o meu filho.

Eu ainda não sei como fiz tudo isso. Pela primeira vez, não foi planejamento rígido e agendado. Foi força de vontade. Foi um dia após o outro, foi determinação. E essa combinação, nos leva longe. 

Espero que o meu testemunho te encha de coragem. 

Agora preciso dormir, são quase 1 da manhã e eu te escrevo aos 9 meses de gravidez.

Até o próximo post.




 

Um comentário

  1. Parabéns, Talitha! Grande admiração por você e como já te acompanho a alguns anos posso dizer, não esperava menos de ti! 2020 nos mostrou o que e quem realmente importa. Viver um dia por vez também está sendo a minha realidade, torcendo para que isso acabe logo e a minha família fique bem até tudo ser solucionado. No fim, agradeço por ter tirado um tempinho dentro de tudo que estás passando e nós mostrar o quanto é importante ver o lado bom dentro do caos. Fique bem e saudável, logo Noah estará nos teus braços .. que Deus te abençoe e te proteja no parto e na vida! Sucesso! Beijão

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